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Tux Sistemas e programas livres no Ensino e Formação

Um sítio para a divulgação de conhecimentos e recursos


Porquê software livre?
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Porque estes recursos nos oferecem condições notáveis e vantajosas que objetivamente vale a pena considerar:
  • não temos de suportar custos associados à aquisição dos sistemas e programas e suas atualizações; os atuais custos devidos à não-utilização de software livre nas organizações públicas ascendem a milhões de euros anuais à escala nacional (em Portugal), o que constitui um flagrante desperdício;
  • economizando recursos financeiros que deixam de ser aplicados em programas informáticos, as entidades oficiais, incluindo as escolas, podem canalizá-los para outros fins, como a renovação de computadores ou melhoramentos diversos;
  • desenvolvemos a consciencialização de custos, que é um importante valor organizacional, e influenciamos a despesa pública, ajudando a reduzi-la;
  • adotamos uma gestão sustentável dos recursos, com boas perspetivas a prazo alargado, independentemente das  promoções comerciais imediatistas e das conjunturas económicas e financeiras;
  • beneficiamos das conhecidas "4 liberdades" associadas ao software livre: a liberdade de executar os programas, para quaisquer fins; a liberdade de estudar como funcionam os programas e adaptá-los às nossas necessidades; a liberdade de redistribuir cópias para ajudar outros que precisam; a liberdade de melhorar os programas e entregar as versões melhoradas ao público para que este beneficie;
  • é automática a conformidade face à legislação de proteção da propriedade inteletual e industrial, não se colocando o problema da pirataria informática, que em Portugal é um ilícito criminal punível com três anos de prisão e multa; a adopção de software livre permite, até, resolver problemas em algumas escolas em que, eventualmente, poderá, existir software ilegalmente em uso;
  • como os sistemas e programas livres formam uma monumental obra resultante do trabalho colaborativo realizado por comunidades virtuais, geograficamente distribuídas e unidas pelas Internet, é percepcionado diretamente pelos alunos  e professores  o potencial da colaboração em geral, bem como o imenso potencial do trabalho conjunto apoiado em Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), o que é muito importante em termos educativos e de formação de cidadãos que tirarão o máximo partido das tecnologias na Sociedade da Informação;
  • dispomos, por via da Internet, de uma comunidade global pronta a partilhar informações e a ajudar, o que promove a utilização das TIC e facilita e até incentiva a aprendizagem e a autoformação, sem segredos ou conhecimentos vedados;
  • existem actualmente na Internet à nossa disposição sistemas e programas livres de boa qualidade, superando mesmo, neste aspecto, as soluções proprietárias; muitas vezes, os programas são multiplataforma (funcionam sobre diversos sistemas operativos); os pacotes LibreOffice OpenOffice, que são dos mais relevantes para os nossos fins, apresentam conformidade de formatos com as normas ISO e possuem características de interoperabilidade com outros programas, inclusivamente com os proprietários;
  • as aplicações livres são perfeitamente satisfatórias, tanto para os fins de uma formação geral em TIC, como do estudo de diversas disciplinas escolares, como ainda da realização das vulgares tarefas de escritório, as quais recorrem a software-padrão;
  • o sistema operativo Linux não padece dos problemas de segurança que levam os administradores de redes proprietárias a gastar recursos em software antivírus e a executar rotineiramente, embora sem eficácia garantida, pesquisas periódicas de vírus e outros elementos danosos; como nas escolas existem muitos computadores antigos, esse software, que é executado em fundo, torna-os ainda mais lentos;
  • ao utilizarem sistemas operativos e programas de vários tipos e origens, os alunos  ganham uma visão mais equilibrada e abrangente da realidade das TIC, enquanto desenvolvem a sua capacidade crítica e de avaliação da qualidade dos produtos e soluções, bem como melhoram a sua consciência dos compromissos e constrangimentos próprios do software.
  • os alunos com menores possibilidades financeiras não são desfavorecidos, pois têm imediato acesso, livre de custos, aos programas que se adotam na Escola e de que necessitam em casa para estudar e praticar, o que se traduz em melhoria da inclusão social;
  • os alunos não são tentados a gerar ou instalar cópias ilegais de sistemas e programas;
  • os alunos e professores não são joguetes de uma empresa; é caricato e ética e dentologicamente inadmissível que um professor, para realizar o seu trabalho quotidiano, que parcialmente decorre em casa, seja, na prática, obrigado a pagar do seu bolso os produtos de uma empresa privada e depois vá desempenhar, ao serviço do Estado Português, sessões de formação dos clientes dessa empresa;
  • como as editoras não criaram manuais escolares dedicados aos sistemas e aplicações livres, os professores têm de criar os seus próprios textos de apoio, a par de outros recursos, o que representa uma importante oportunidade de reflexão e discussão das melhores soluções em termos didáticos, bem como um responsável e benéfico trabalho de reinterpretação curricular, planeamento, execução, avaliação e partilha;
  • sendo os recursos criados ou adaptados pelos próprios professores, eles são mais adequados aos seus alunos e são fornecidos gratuitamente e disponibilizados em formato electrónico;
  • a migração para sistemas e aplicações livres proporciona às organizações escolares um grande desafio e  uma grande experiência de Inovação com impacto tecnológico, pedagógico e organizacional, coloca à prova o profissionalismo dos seus agentes e combate o individualismo e o imediatismo, posicionando o interesse geral acima do interesse particular, o que, em termos sociais, e para mais em contexto educativo, é de grande relevância.


Resistência à mudança

 
A adoção generalizada de software livre implica diversas mudanças. Estas são dinamizadas por agentes de Inovação. Nas escolas, são os professores que detêm os lugares-chave e o seu desempenho de papéis de liderança é condição sine qua non para o êxito do processo. A  liderança dos professores deve estar enquadrada numa liderança de mais alto nível, que é a exercida pelos órgãos de administração e gestão das escolas. Estas, desejavelmente, não deverão estar sozinhas, mas por sua vez enquadradas num contexto nacional, em consonância com os objectivos governamentais para o ensino público.

Ora, ao longo da cadeia de lideranças referida e nos vários contextos implicados, existem fortes possibilidades de falta de apoio à mudança, que coloca em causa interesses instalados. Desde logo por parte dos níveis superiores, não havendo uma orientação clara no sentido da mudança, resultarão em vários pontos da cadeia atitudes de indiferença, ambiguidade ou oposição, nada favoráveis à efetiva e generalizada implantação do software livre (SL).

A adoção de atitudes esclarecidas e  favoráveis ao processo de mudança está dependente da presença, nas mentes dos agentes envolvidos, de sensibilidades e competências simultâneas nas três áreas representadas na figura seguinte.


 

Como as sensibilidades e competências referidas só raramente se encontram em simultâneo nas mentes  dos potenciais agentes de mudança, estes, sob a influência das formas de pensar próprias do senso comum, dos  efeitos miméticos decorrentes dos contextos sociotécnicos em que se movimentam e da percepção de que a mudança implicará sempre esforços de adaptação que vêm como indesejáveis, remetem-se às referidas atitudes de indiferença ou oposição.

Do mesmo modo, raramente encontramos dirigentes das estruturas centrais ou gestores escolares que, em simultâneo, reúnam estas sensibilidades e competências, em termos próprios ou delegados de tal forma que não se perca uma posição de integração conducente às decisões que fariam avançar a utilização generalizada de software livre tendo em conta as suas vantagens. Para mais, empresas orbitam em torno dos centros de decisão, exercendo todas as influências que podem, no sentido da transação dos seus produtos.

O colmatar das referidas lacunas de sensibilidade e competência seria uma tarefa própria dos níveis de gestão, por via de divulgação, mentalização, formação, motivação e responsabilização, no âmbito do desenvolvimento e propagação de políticas que materializassem certos princípios e valores organizacionais de aceitação consensual e favorecidos pelo uso de software livre, como sendo a consciencialização de custos, a gestão sustentável dos recursos, a igualdade de oportunidades e a info-inclusão. No entanto, como em muitas escolas estamos ainda, em certos aspectos, na "pré-história" da Gestão, em geral verificamos que estas dinâmicas não são desenvolvidas e resultam situações de conflito entre agentes de Inovação minoritários e o resto da organização.

Em seguida, damos resposta a alguns dos argumentos que com frequência se ouvem contra a utilização generalizada de software livre:

O sistema Linux é uma coisa desconhecida, não sei trabalhar com ele. E nunca trabalhei com o Libre Office ou com o OpenOffice, eles são diferentes do MsOffice.
Para que queremos o sistema operativo? Para abrir, fechar, guardar, copiar, mover ficheiros entre unidades de armazenamento. Abrir e fechar aplicações. Abrir, fechar, alternar entre janelas. Iniciar e encerrar o sistema. Não é preciso pensar em mais complicações, pois o sistema realiza por nós as tarefas complexas. De resto, tanto do ponto de vista conceptual, como estrutural e funcional, os ambientes gráficos dos sistemas livres e os dos proprietários são extremamente parecidos e de operação intuitiva. É por isso que vemos todos os dias muitas pessoas, a começar pelos jovens, não precisarem de qualquer formação para passarem a utilizar os sistemas e aplicações livres. O mesmo se pode dizer do LibreOffice ou do OpenOffice. É curioso que não ouvimos muitos utilizadores protestar ao terem de se adaptar do Windows XP ao Windows 7 ou deste ao Windows 8 ou do MsOffice 2010 a versões posteriores, o que mostra que a questão apresentada não é de natureza técnica, mas antes uma questão de atitude. Nas escolas, normalmente haverá sempre alguém por perto que poderá esclarecer dúvidas, sobretudo no período de transição.

Trago documentos do computador de casa ou do portátil para a escola e quando os abro no LibreOfice ou OpenOffice existem problemas, os documentos aparecem "desconfigurados".
O LibreOffice e o OpenOffice apresentam um elevado grau de interoperabilidade face ao MsOffice (já este não apresenta essa boa interoperabilidade), embora em certos documentos a compatibilidade não resulte perfeita. Conforme tem sido aconselhado, o melhor é instalar o LibreOffice ou o OpenOffice em casa ou no computador portátil. No sistema proprietário, este pacote de aplicações pode coexistir lado a lado com o MsOffice sem qualquer problema. (A partir de Setembro de 2008, o OpenOffice passou a apresentar interoperabilidade face ao MsOffice 2007).

Na minha escola até já se usa software livre, mas há problemas técnicos e os alunos até se queixam por não poderem trabalhar no sistema proprietário (Windows).
Em algumas escolas, já se encontra implantado software livre em alguma extensão. Não há razão técnica para a existência de problemas, pois os sistemas e aplicações são de qualidade verificada e existem pessoas a quem recorrer em caso de dúvidas técnicas, inclusivamente por meio de fóruns acessíveis na Teia Mundial. As razões dos problemas ocorrem, frequentemente,  ao nível da organização e dos procedimentos. Convém verificar se está a haver um adequado apoio à mudança por parte dos órgãos de administração e gestão e das lideranças intermédias da escola. Temos presenciado queixas de alunos, por exemplo, no âmbito da realização de trabalhos de projeto ou outras utilizações dos computadores, na biblioteca ou nas salas de aula. Mas os respetivos professores explicaram-lhes, no início do ano, porque se deve usar software livre e onde se podem obter a documentação e os programas? Os professores deram o exemplo? Foram comunicando  necessidades e ocorrências ao Coordenador de TIC? Como se vê, trata-se sobretudo de questões organizacionais, muitas delas próprias de uma fase de arranque de uma nova variante tecnológica.

Eu já tenho muito trabalho e não quero saber de nada disso, quero é lecionar as minhas matérias e concentrar nisso a minha atenção.
Esta posição é individualista, ao não considerar o que se passa em redor, as oportunidades de melhoria e em particular o combate ao desperdício. Por outro lado, um certo grau de envolvimento com o estudo da Tecnologia é actualmente necessário, da mesma forma que ao comprarmos um televisor ou um forno de microondas sofisticado não nos importamos de gastar algum tempo a estudar o respectivo manual. Como os professores têm de dedicar algum do seu tempo a atividades de formação, essa pode ser uma perspetiva pela qual justificar os seus esforços de adaptação, embora, no que toca ao software-padrão não haja propriamente grandes necessidades de formação, dada a sua similitude relativamente aos produtos de software comercial. Basta começar a utilizar o software e ir esclarecendo algumas dúvidas à medida das necessidades.

Eu até nem uso computadores, estou à margem de toda esta problemática.
O uso generalizado das TIC é hoje indispensável para que se atinjam níveis de Qualidade razoáveis no âmbito do funcionamento das organizações escolares e da satisfação das necessidades dos beneficiários do Serviço Educativo.  É urgente desenvolver processos de mentalização e envolver os professores que não usam computadores em acções de formação com boa diferenciação, no sentido de os apoiar na mudança com vista à sua inclusão na "escola digital". Quem não usa ou ainda usa pouco computadores terá ainda menos dificuldades em adaptar-se ao software livre, já que se inicia nesta modalidade.

Sou professor(a) de Matemática, Educação Visual ou outras disciplinas e preciso de programas que não funcionam no sistema livre.
No contexto internacional, a Matemática tem sido, desde há anos, uma das áreas mais tratadas em termos de software livre, existindo uma ampla oferta de programas livres. Existem também programas livres de tratamento de imagem, seja do tipo mapa de bits, vectorial ou tridimensional, bem como programas de desenho assistido por computador. É altura de rever as necessidades com espírito de abertura a novos programas, de modo a podermos desfrutar das vantagens do software livre. Existem milhares de aplicações disponíveis. Assistimos com muito mais frequência a posições de passividade, do género "não tenho, por isso não mudo", do que a posições activas, incluindo de grupos, do género "vamos procurar o melhor software livre para a nossa aplicação". As pessoas mais indicadas para identificarem os produtos de software livre que servem os fins desejados e promoverem as mudanças nas suas áreas são os próprios docentes das especialidades em causa. Por exemplo, a Universidade de Aveiro (Portugal) oferece importantes plataformas de aprendizagem em linha da Matemática, organizando competições acessíveis aos vários níveis etários, etc., mas esses recursos, tanto quanto temos conhecimento, apenas funcionam com o navegador de um sistema proprietário. Temos ouvido queixas contra o software livre por não permitir, assim, o emprego destes recursos, mas não temos  informação de que os professores de Matemática tenham contactado a Universidade no sentido de alertarem para a  conveniência de uma mudança de política. Se houver sensibilidade às vantagens da utilização do software livre, este objectivo estará presente e  serão desenvolvidas, de modo descentralizado, ações para o atingir. Outros aspectos desta problemática são os seguintes: como vão os alunos ter possibilidade de realizar um desejável trabalho de estudo individual, nas suas casas ou noutros espaços de trabalho, se tiverem de recorrer à compra de software caro de desenho,  ilustração, tratamento de imagem, modelação tridimensional ou Matemática? E é claro que das múltiplas funções que tais programas comerciais oferecem, só uma pequena fração será tratada nas aulas ou utilizada pelos alunos, o que reforça a ideia de que não será muito difícil encontrar soluções baseadas em software livre.

Lecciono utilizando um programa de Contabilidade proprietário e conheço colegas ligados ao Ensino Industrial que não podem trabalhar sem o sistema proprietário. E os serviços administrativos da escola usam programas que só existem nesse sistema.
É certo que há algumas áreas em que o sistema proprietário Windows é, de momento, insubstituível. Em certas aplicações técnicas e industriais, provavelmente vai ser sempre necessário dispor do mesmo. Nestas áreas, claro que é necessário continuar a usar esse sistema, mas nesses postos de trabalho pode introduzir-se também algum software livre adotando produtos multiplataforma, isto é, que funcionam em vários sistemas. Quanto às aplicações principais que forçam a adoção do sistema proprietário, nem sempre é verdade que não existam alternativas. Cada caso deve ser investigado cuidadosamente e com um espírito aberto, ponderando todos os fatores envolvidos. À medida que o software livre se implantar, surgirão soluções que virão a melhorar esta situação. Em certos casos, já são conhecidas, como é o caso de um pacote de gestão de informação escolar que poderia já substituir os programas pagos utilizados nas secretarias das escolas. Se for efectuada uma gestão criteriosa dos horários, o número de salas que em cada escola necessitarão de estar equipadas com software pago será minimizado.

Eu dou aulas a turmas de cursos profissionais e nas empresas não se usa software livre. Exijo a máxima orientação para a realidade das empresas.
Por um lado, nas empresas já se vai encontrando software livre. Os professores e alunos podem, até, afirmar-se como agentes de Inovação nas empresas, por via do fluxo de experiências e conhecimentos actualizados com que a escola contribui no âmbito da relação escola-empresa. Por outro lado, é necessário ter em conta que, do ponto de vista do utilizador, tanto do ponto de vista conceptual, como estrutural e funcional, as diferenças entre os sistemas e aplicações livres e os sistemas e aplicações proprietários, no que toca a software-padrão como o pacote de aplicações de escritório, são pouco significativas. E raramente se poderá garantir o alinhamento perfeito entre as versões de software presentes na escola e as presentes numa dada empresa. Estranhamente, quando essas versões são diferentes mas todas proprietárias, como é o caso  das nada desprezáveis diferenças entre as várias versões de MsOffice, ninguém apresenta objeções desta natureza. Acrescem ainda aspectos de natureza didática: com efeito, um dos temas com que se preocupa a Didática das TIC é o da transferibilidade das aprendizagens. O Ensino de TIC deve procurar a transferibilidade e contemplar não apenas as dimensões materiais, isto é, os conteúdos objectivos elementares, como as dimensões formais, que se referem aos métodos e às competências correspondentes a desempenhos inteletuais de ordem elevada que estão ligados ao desenvolvimento das faculdades do indivíduo e são importantes no âmbito das qualificações-chave. Verifica-se, infelizmente, que muitos professores adotam um estilo didático demasiado "objetivista", com pouca margem para as dimensões formais. (Como vemos, além do mais a utilização de software livre ajuda até a promover a reflexão e discussões de natureza didática, o que é também uma mais-valia.)

Se o Governo nos coloca nas escolas mais de 100.000 postos de trabalho com software pago, se este está disponível, porque não utilizá-lo?
Porque isso representa um flagrante desperdício que ascende a milhões de euros por ano e cujos efeitos não são apenas imediatos. Pelo contrário, mesmo que as licenças pagas fossem vitalícias, a rápida evolução das Tecnologias fará com que, em poucos anos, volte a ser necessário pagar maciçamente a actualização dos sistemas e aplicações. Trata-se, assim, de uma espécie de "presente envenenado". Por outro lado, é um erro criar ou continuar a alimentar a habituação dos utilizadores aos sistemas pagos, o que fará com que a futura mudança (quando as condições económicas, como as tendências indicam, se agravarem) seja mais penosa. O que faz sentido é substituir nos computadores o software proprietário que o Governo nos envia por software livre. As escolas podem fazê-lo, pois detêm o controlo técnico da utilização dos computadores e podem afirmar também neste aspecto a sua autonomia. Trata-se, até, de uma oportunidade de intervenção cívica tendo em conta o interesse público. Se nas escolas até se ensina Formação Cívica, seria lamentável que não se desse o exemplo, adoptando apenas uma posição de passiva resignação face às políticas governamentais.

Mas o que me garante que o dinheiro poupado ao adotar-se software livre vai reverter a favor do Ensino ou dos segmentos carenciados das populações?
Nada o garante, de facto. Como mostram diversas sondagens, verificam-se até um certo descrédito e suspeição sobre a "classe política". No entanto, o desperdício é que, certamente, não favorece o Ensino ou os segmentos carenciados das populações. Continua a ser um bom princípio evitar o desperdício. E também há alguns gastos em equipamento realizados directamente pelas escolas. Neste caso, haverá mesmo um benefício garantido.

Em casa e no meu computador portátil, eu tenho software pago e em condições legais. Ninguém me pode impedir de o usar e não quero em casa o sistema operativo livre.
Claro que não. Mas uma coisa é ter possibilidades económicas e vontade de pagar um produto comercial para uso doméstico e outra é a situação do parque informático das escolas públicas, com custos suportados por toda a população. E não se trata apenas de uma questão de custos, mas também com sérias vantagens pedagógicas, como se pode ler na parte inicial deste artigo. Por outro lado, para evitar alguns incómodos, é de todo o interesse dispor em casa do software livre utilizado na escola, o que, de resto, não levanta qualquer problema, dado que é gratuito e existem informações técnicas de apoio. E no mesmo computador podem coexistir o sistema pago e o livre. As escolas podem adoptar um conjunto de software livre preferido que seja multiplataforma, ou seja, é possível em casa dispor de um sistema operativo pago, sobre o qual pode ser utilizado, a par de aplicações pagas e  não interferindo com estas, um conjunto de aplicações livres de interesse da escola.

Não admito que me cortem a liberdade de escolha. E acho que estas coisas têm de ser decididas democraticamente e não impostas por quem quer que seja.
Referem-se expressões que possuem um carácter inquestionável ou até "sacralizado", como democracia e liberdade de escolha. No entanto, na base destas declarações estão uma atitude individualista, imediatista,  consumista e superficial e uma posição prévia contra a mudança, senão vejamos: por definição, a Inovação, que todos desejamos que ocorra e num sentido que beneficie as populações, não surge maciçamente no seio destas, antes é inicialmente protagonizada por minorias e só depois se generaliza. A democracia e a liberdade de escolha não podem ser, neste caso, consideradas apenas à luz dos interesses imediatos dos pequenos grupos de utilizadores e da sua esfera restrita de actuação, mas sim do interesse geral da população, que certamente é beneficiada pela adopção do software livre. A liberdade de que alguns desfrutam pode prejudicar a maioria, se for mal utilizada. Assim, o que é mais amplamente democrático, o que é do interesse da população em geral, que no caso português, até sofre de muitas e bem dramáticas carências, é a adopção de software livre, e não o evitável dispêndio anual de milhões de euros que poderiam ser canalizados para outros benefícios. Quanto à liberdade de escolha, ela continuará a existir, na medida em que os sistemas livres existem em diversas versões e podemos optar entre milhares de aplicações, incluindo várias para os mesmos fins. As pessoas que apresentam hoje este argumento, nunca o fizeram anteriormente em protesto por terem, nas suas escolas, exclusivamente software proprietário, o que revela não só incoerência, como o facto de por trás deste argumento se encontrar uma rejeição prévia do software livre, tal como acima referido, sobretudo por ele implicar um esforço de adaptação que não desejam despender. Conforme explicado noutro ponto deste artigo, a atitude favorável à mudança para software livre resulta de um conjunto de sensibilidades de gestão e competências técnicas e, como tal, deve essa mudança ser efectuada como ato de Gestão, tendo em conta o interesse público, para a defesa do qual se encontram legitimamente mandatados os órgãos próprios.

Se no mesmo computador podemos ter o sistema pago e o livre e cada um pode utilizar aquele que prefere, porquê tanto alarido? Cada um que faça o que entender.
Estamos a falar de uma mudança generalizada para software livre. Verifica-se que a grande maioria dos utilizadores usa ainda o sistema comercial. Como é sabido por quem já tem experiência em ambientes em que nos postos de trabalho existe a possibilidade de utilizar quer um sistema proprietário, quer um sistema livre, nestes casos praticamente todos os utilizadores se encaminharão para a utilização do software proprietário, permanecendo a utilização do software livre apenas um acto marginal a cargo de alguns "excêntricos". Com a excepção de fases transitórias de curta duração ao migrar os postos, bem como de situações, minoritárias, em que o sistema proprietário ainda não pode ser substituído, permitir a situação dupla é, pois, em termos líquidos, o mesmo que expressar que não se pretende a implantação do software livre. Por outro lado, a presença de dois sistemas em escalas consideráveis implica a duplicação de recursos humanos e materiais no que toca à administração técnica, à formação e apoio dos utilizadores e à produção e partilha de recursos didácticos, o que viria constituir mais desperdícios e confusão.

Não tenho uma visão maniqueísta desta questão e acredito é na utilização progressiva do software livre.
A resposta à questão anterior também se aplica a esta. Acresce que uma abordagem progressiva teria um êxito  incerto ou muito duvidoso e certamente estendido ao longo de um número considerável de anos. Entretanto, por cada ano que passa, milhões de euros estão a ser desperdiçados. A mudança pode ser relativamente rápida, mediante estratégias e medidas de Gestão apropriadas, tomadas aos diversos níveis do Sistema Educativo. Quando tratamos de Tecnologia, não é de admirar que certas mudanças possam ser rápidas, o que até nos lembra a expressão "revolução tecnológica", a qual nem se aplica verdadeiramente aqui, pois, do ponto de vista do utilizador, os novos sistemas e aplicações são muito parecidos com os actualmente em uso. A mudança em causa é mais de atitudes, mentalidades e hábitos.

Estas discussões são mais uma questão de "clubismo" do que outra coisa: uns gostam mais de um tipo de software, outros gostam mais de outro tipo.
O "clubismo" é uma questão de adesão segundo critérios em boa parte irracionais e com efeitos de pouca importância. No caso da discussão associada ao tipo de software a usar, e escolha não dever ser de modo algum arbitrária ou subjetiva, pois as consequências são de grande alcance a vários níveis, sendo de destacar o desperdício de recursos financeiros que implica a adesão, irreflectida ou não, ao software pago.

Não sou radical nem fundamentalista, ao contrário dos que propõem o software livre.
Os termos radical e fundamentalista são, neste contexto, apenas rótulos que se colocam a quem tem ideias diferentes e claras que se afastam do estado geral das coisas ou da moda.  Ao aplicar termos de conotação negativa ao assunto e às pessoas, pretende-se a  rejeição, evitando a discussão, que pode ser trabalhosa e "desagradável". Este assunto lembra a  expressão "loucura da normalidade". De facto, podemos até aplicar aqueles termos no sentido oposto, se considerarmos o radicalismo associado à persistência no desperdício anual de milhões de euros e o fundamentalismo que constitui a fidelização a uma empresa  com políticas de mercado monopolistas que fornece produtos de software. Insistir nestes termos nada contribui para o esclarecimento da questão nem para evitar o desperdício.

Não sou moralista nem polícia. Se os alunos, e até os professores, pirateiam software, isso é lá com eles. Nada tenho a ver com isso.
A adoção de software livre faz reduzir a taxa de utilização de cópias ilegais de software. Se as escolas adotarem software livre, aquela taxa diminuirá. Os professores são educadores. Sabendo que a sua atuação terá consequências nas atitudes, valores e comportamentos dos alunos, e que alunos serão tentados a cometer ilegalidades  — e cometem-nas, é um facto estatístico — no caso de não  ser adotado software livre, os professores não deverão ser indiferentes a esta questão e a melhor posição é dar o exemplo, aderindo ao software livre.

Mas o nosso uso de software não é com fins lucrativos. Eu não me importo nada de usar software copiado nas minhas aulas, até acho que as empresas têm é de nos agradecer por estarmos a divulgar os seus produtos, não temos nada a pagar-lhes.
Mesmo que este raciocínio possa apresentar alguma lógica, é efectuado à margem da Lei. Esta é bem clara e não tolera uma tal situação. De nada serviria fornecer essa explicação no dia em que a ASAE (autoridade que, em Portugal, zela pela conformidade legal nesta área) fosse inspecionar a escola. Os computadores seriam confiscados e os responsáveis punidos. Por outro lado, em termos educativos, é inadmissível verbalizar um tal discurso e dar tal exemplo numa escola, já que a conformidade face à Lei é um valor básico a cultivar.



O Sítio Livre

Efetuámos uma selecção de produtos, reflectida no nosso menu, que nos permitem o trabalho com os alunos integralmente com base em programas gratuitos. De igual modo, as tarefas quotidianas dos professores efectuam-se perfeitamente com base nestes recursos. Para facilitar a adoção dos programas gratuitos, escolhemos aplicações multiplataforma, ou seja, que existem em versões para os sistemas operativos mais divulgados. Também a adoção de versões portuguesas é um critério importante.

Um dos obstáculos que ainda se coloca à adoção de sistemas e programas livres no Ensino e Formação é a escassez de recursos didáticos, como fichas de trabalho e manuais de apoio. Este é precisamente um dos pontos de maior ênfase deste sítio, que visa divulgar recursos já existentes, bem como conhecimentos técnicos, didáticos e de Gestão.

Sendo assim, porque não começar hoje mesmo a usar estas aplicações?

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Pedimos desculpas, entretanto, pela relativa desatualização deste sítio. O software evolui rapidamente e na actualidade o autor deste sítio já não está diretamente ligado a esta área de trabalho, com as limitações de tempo que isso implica. Ainda assim, cremos que muita da informação e recursos aqui disponibilizados podem ser ainda úteis como base de trabalho, especialmente se forem adaptados ou actualizados.


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Um artigo que mostra as importantes e numerosas vantagens da adoção sistemática de software livre, principalmente  nos sistemas de ensino e formação.

 
 
 
 
 
 
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